De uma forma bem diferente, Tetê fez o homem do elevador chegar ao fundo do poço... todo elevador tem um, não? Ele não chegou a decepcionar, parou num estágio muito anterior a uma decepção. Na boa? Ele não subiu um só andar desde o dia em que tomaram um café gelado. Estava bom com ele, mas sem ele estava dando na mesmo. E ele era do tipo que pegava no pé, dá para acreditar? Tetê precisou viajar e ele encrencou porque queria saber com quem ela iria, em que hotel ficaria... imagine Tetê dando esse tipo de satisfação! Tchau, tchau, elevador, Tetê está indo pelas escadas, viu?E Tetê foi ao Rio por dois dias. Tudo rapidinho, a trabalho mesmo, sem tempo para nada, mas espremendo um pouquinho, deu para a via sacra da Visconde de Pirajá: pelo lado direito até chegar pertinho de Copa, volta pela esquerda até o Leblon, vendo tooooodas as vitrines e comprando coisinhas, coisinhas, coisinhas. Marcou com uma amiga no hotel e chegou atrasada, Marina já estava esperando por ela. Beijinhos, beijinhos, Tetê sobe para largar as dezenas de sacolas com as comprinhas básicas e reencontrar Marina em dois minutinhos no hall do hotel.
Ela entra no apartamento e deixa a porta encostada, joga as sacolas em cima da cama e procura uma escova para arrumar o cabelo, quando ouve um estrondo na porta. Tetê se volta e não acredita no que vê... um enorme pedaço de madeira comprida está atravessada da porta até o frigobar. Enquanto tenta entender o que aquilo significa, outro estrondo e outro objeto cai em cima do pedaço de madeira. Um objeto com cabelos compridos e loiros, uma pele bronzeada e uns olhos azuis de gritar!!! Os olhos olharam para ela e riram. E ela sentou no chão no chão na frente dele, assustada e sem saber o que fazer.
Foi o seguinte: o surfista (hum...) estava hospedado no mesmo andar. O apartamento de Tetê ficava ao lado do elevador. Ele passou a tarde dormindo e para aproveitar a praia no restinho do dia, saiu correndo, carregando a prancha. Se embolou todo no corredor e ao invés de entrar no elevador, caiu no apartamento dela que estava com a porta entreaberta.
Bem. Já que estavam os dois ali no chão, ao lado do frigobar, abriram uma cerveja para relaxar. Tetê lembrou da Marina, ligou para a recepção e pediu para a amiga subir. Ela também sentou no chão e os três ficaram horas conversando. A cervejinha acabou, tomaram uísque. Uísque acabou, saíram e, lógico, acabaram na Pizzaria Guanabara. Marina foi embora. Tetê e o surfista viram o dia nascer, andando até o Arpoador, pela beirinha do mar. Falaram, falaram, falaram. Tinham a impressão de que contaram um para o outro, suas vidas inteiras. Ele era carioca, mas estava desde 2005 trabalhando em Belo Horizonte. Sempre que podia dava uma fugida para aquele hotelzinho no Leblon para surfar e matar as saudades da cidade maravilhosa.
O sol já estava bem alto na pedra do Arpoador. Ele de bermuda e camiseta. Tetê com um vestidinho de seda com franjas de miçangas na barra. Tomaram café num boteco, voltaram para o hotel e trocaram telefones. Ela tinha uma última reunião pela manhã e voltava para Curitiba logo após o almoço.
Já no avião, ela pensou que ele era um homem que poderia, vez ou outra, freqüentar a casa dela... mesmo porque ele morava longe... e um surfista... bem, um surfista é um surfista. Não pega no pé, tem uma outra cabeça, outros interesses. Aliás, ele tem uma cabeça linda. Cabelos lindos. Olhos lindos. Corpo lindo...
E um surfista de verdade deixa recados na secretária do celular dela, que ela houve enquanto aguarda as bagagens na esteira do aeroporto. Um surfista de verdade diz que tem saudades e que não parou de pensar nela desde o café da manhã no boteco...
